10 de abril de 2019

A importância da alfabetização digital em tempos de fake news

Boatos – às vezes iniciados como uma simples brincadeira entre membros de um grupo específico – têm se tornado um problema real. Via WhatsApp, redes sociais e até comentários irresponsáveis de influenciadores digitais, fake news têm alcançado contornos de verdade. Recentemente, uma dessas narrativas fantasiosas ganhou tantos desdobramentos na internet que acabou colocando muitas crianças, pais e educadores em pânico. Foi o caso da Momo, uma personagem macabra que estaria aparecendo em vídeos destinados a crianças. No meio da confusão, supostas “evidências” chegaram a ser fabricadas por aproveitadores em busca de visualizações. Neste link é possível conferir um dossiê elaborado pelo site e-farsas sobre o assunto.

A julgar pela quantidade de adultos letrados que acabam avalizando fake news, o que esperar de indivíduos ainda em formação? Mesmo parecendo fluentes em novas tecnologias, crianças e jovens não costumam avaliar o conteúdo que encontram. Tampouco conseguem perceber motivos para desconfiança em relação a tais informações. A questão é que identificar o que é verdadeiro ou falso no meio digital está cada vez mais complicado. Somam-se ao fato lendas urbanas, discurso de ódio e a falta de limites entre liberdade de expressão e ataques diretos. Por isso, trabalhar a alfabetização digital desde cedo é fundamental para formar cidadãos empoderados, racionais e emocionalmente inteligentes. Neste contexto, a escola passa a exercer mais um importante papel na sociedade. Afinal, trata-se do ambiente ideal para promover tal debate e combater a difusão de conteúdos apócrifos.

Atualizações sustentadas pela BNCC

Desenvolver o pensamento crítico dos estudantes no meio digital já é uma demanda incluída na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Especialmente no que diz respeito a compreender, utilizar e criar tecnologias de informação e comunicação. Exercitar a curiosidade intelectual, valorizar e apropriar-se de diversos saberes e vivências culturais também são atitudes reforçadas pelo documento. Dessa forma, cabe à escola contemplar essas novas práticas de linguagem e de produção a partir da alfabetização digital. Ou seja, além de atuar na curadoria de conteúdo, é importante que o professor instrua o aluno na busca por fontes confiáveis. E, mais do que isso, saiba diferenciar notícias de “conteúdo patrocinado”, além de buscar uma boa checagem dos fatos.

Como trabalhar fake news na educação

Independentemente da idade dos alunos, com boas estratégias é possível trabalhar o conceito e as consequências ocasionadas por fake news. Uma delas é usar o storytelling na implementação de um exercício. No caso das crianças, a trama de uma história infantil pode ajudar a explicar a estrutura de uma notícia. Para isso, depois de contar a fábula, o professor pode ajudar a turma a identificar os fatos mais importantes. Assim, basta responder às perguntas: “quem, o quê, quando, como, onde e porquê”. Em seguida, a dica é repetir o exercício, desta vez, usando uma pequena notícia de jornal. Para complementar a prática, peça aos alunos que produzam sua própria notícia verdadeira. Dessa forma, terão contato com os métodos básicos de apuração e checagem de informações.

Para desenvolver o senso crítico dos estudantes, foque o trabalho no “tripé da verdade” formado por fonte, checagem e especialista. Afinal, reconhecendo de onde vem a informação (autoria) e quem a está dizendo são maneiras de identificar uma notícia confiável. Para checar o conteúdo também é importante comparar diferentes fontes e recorrer especialmente a sites de órgãos oficiais. Outra questão relevante é saber diferenciar a linguagem jornalística da publicitária. Enquanto a primeira é restrita aos fatos, a outra costuma ser carregada de adjetivos. Para complementar a verificação, indique sites que atuam de forma profissional na de checagem de boatos (como Boatos.org ou E-Farsas). Vale lembrar que, além dos textos, imagens e até mesmo áudios são hoje facilmente manipulados. Mostrar alguns exemplos pode render debates bem interessantes.

Outras dicas para pais e professores

Além da escola, a família também tem papel fundamental no combate às fake news e no empoderamento de jovens e crianças. Para isso, identificar alguns assuntos que sejam do interesse deles é importante para incentivá-los em suas pesquisas online. Em casa ou em sala de aula, pais e professores podem ajudar os estudantes a encontrar e avaliar informações relevantes. Para isso, a dica é conversar sobre o que eles estão lendo ou assistindo e a partir de qual site ou plataforma.

Também é importante perguntar sobre o caminho que eles usaram para chegar até determinado conteúdo. Além de não saberem avaliar bem as fontes de informação, crianças e adolescentes costumam realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Tal prática acaba dificultando o desenvolvimento do seu processo crítico. Já para estimular a formação de opinião, é possível aproveitar momentos em família para comentar as principais notícias do dia. Para basear essas conversas, pais e professores podem indicar o acesso a mais de uma fonte confiável. Assim, crianças e jovens podem aprender a comparar as informações.

 

Foto: iStock/Wachiraphorn

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