11 de julho de 2019

Como a tecnologia educacional estimula a evolução dos alunos

A tecnologia faz parte do cenário social e, portanto, deve ser compreendida desde o contexto escolar. É com esse pensamento que Marcelo Milani atua como coordenador de tecnologias educacionais no Colégio Humboldt, em São Paulo. Com aulas em Português e Alemão, o educandário desenvolve projetos interdisciplinares nos quais os dispositivos ajudam a potencializar o aprendizado. Em entrevista à Revista iPlace Educacional, Milani falou sobre como a tecnologia educacional colabora para desenvolver certas competências dos alunos. Trata-se de um conhecimento necessário para o futuro – ainda que não se saiba, exatamente, o que esse futuro nos reserva. Confira alguns destaques desse bate-papo exclusivo:

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Marcelo Milani

Na sua opinião, qual é o papel da tecnologia educacional?

É uma pergunta difícil. Se você a fizer para dez pessoas, provavelmente cada uma terá uma percepção ligeiramente pessoal. Na minha opinião, o papel da tecnologia na escola é, em primeiro lugar, potencializar o desenvolvimento cognitivo e socioemocional. Uma boa tecnologia educacional hoje é aquela que ajuda a desenvolver uma série de outras questões. Ensinar programação é importante porque ajuda a enxergar o mundo, pensar e conviver com a matemática e as linguagens de maneira diferente. Abre-se um canal novo de percepção para o mundo. Essa abertura ao novo é importantíssima, e a tecnologia é um meio muito poderoso para ampliar essa percepção.

A tecnologia educacional também prepara para um futuro que você não necessariamente sabe qual é. Trabalhando as tecnologias de maneira consciente, você começa a entender como as corporações se constituem e as ferramentas se organizam. Isso dá uma noção de como o mundo se forma e quais rumos as coisas podem tomar.

Quando falamos em tecnologia, também precisamos falar de inovação, o que é muito complicado. Algumas coisas caminham despercebidas até que você se dá conta de que aquilo se fortaleceu. Ou seja, você direcionou o olhar para o lado errado. Talvez fosse só marketing – ou o momento não fosse adequado para aquilo. Certas soluções surgem um pouco antes do tempo. Trabalhar com tecnologia ao longo de 12 anos com um aluno o insere nessa lógica de prestar atenção àquilo que pode ter vindo para ficar ou é passageiro, e o ajuda a tomar decisões.

 

Então não seria o caso de simplesmente ensinar a utilizar um software, mas, sim, de desenvolver um pensamento mais global…

Exatamente, embora tenhamos percebido que ensinar as questões técnicas é importante. A escola tem a missão de tentar acelerar a curva de aprendizagem. Aquilo que uma criança supostamente aprenderia sozinha em dois anos, de repente ela pode aprender em seis meses. Isso traz uma vantagem significativa para o aluno. Temos de tomar cuidado para contextualizar isso no ambiente escolar, dentro da lógica que acreditamos ser necessária. Ensinar questões técnicas ajuda a eliminar ruídos iniciais. Dizer para o aluno “aqui salva”, “aqui imprime” e “aqui muda a fonte” faz com ele ganhe em aprendizado. É diferente do tempo que ele leva para explorar um software por completo. Neste caso, o aluno por si mesmo pode ganhar mais do que se alguém indicar fórmulas prontas.

A função da escola é trazer um significado para tudo isso. Estamos trabalhando na construção de um currículo de mídias. São quatro unidades temáticas: Hardware, Software e Redes; Análise, Consciência e Decisão; Estéticas, Narrativas e Programação; Sociedade Tecnológico-Midiática e Segurança. Temos percebido que esta última unidade temática é muito importante. Por exemplo, sabemos que é importante apresentar para a criança o que é um smartphone. Mas, daqui dois anos, talvez a noção de smartphone esteja tão solidificada que deixe de ser importante se trabalhar. O zeitgeist já faz com que a criança traga esse background de casa. Isso faz com que mudemos o contexto: a questão, agora, é ensinar a usar o smartphone de uma maneira sustentável. Tanto fisicamente quanto de uma maneira organizacional mais profunda.

 

Numa sociedade em que a tecnologia avança tão rápido, qual o maior desafio dos educadores? Revisar o currículo todo ano, talvez?

Não diria que rever o currículo todo ano, embora essa leitura seja importante, pois a inovação é um processo constante. Quando atingimos um patamar que julgávamos ser ideal, descobrimos que aquilo já ficou velho. Na minha opinião, o importante é perceber quais são os pilares que demoram mais para ser demolidos. Nós sabemos que o pensamento computacional se difere da programação propriamente dita. A linguagem de programação pode mudar, mas o pensamento computacional – a lógica por trás – continuará sendo relevante por muito tempo. Compreender o impacto que o mundo tem sobre a construção desse processo todo é algo importante também. As competências ético-sociais, crítico-analíticas e crítico-filosóficas são mais duráveis, pois são elas que permitem trafegar pelo mundo. Aquilo que é técnico terá de ser revisto com relativa frequência. Mas não a maneira como você reflete a respeito da tecnologia, os passivos sociais que ela gera, seus potenciais financeiros… Essas são habilidades mais estruturais. Assim como o modelo de mundo que ela constrói e a maneira como cada avanço pode impactar essa construção.

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O que a tecnologia não substitui?

Na minha opinião, ainda não substitui o contato humano. A mediação precisa de interfaces humanas em alguns momentos. Sozinhos, os alunos não se desenvolvem tão bem como quando têm o acompanhamento de uma pessoa. Seu filho pode se desenvolver sozinho, mas, se ele tiver alguém ajudando, vai se desenvolver ainda melhor. Isso é o que a gente observa. Mesmo um aluno muito bom, com alta capacidade de refletir sobre o próprio aprendizado, terá ganhos muitos maiores se tutelado. São questões como a atenção, o contato humano, saber que precisa se reportar a uma pessoa. Ele não vai poder se esconder. Não vai poder simplesmente desligar o computador quando as coisas ficarem fora do controle. Ele terá de aprender a lidar com a situação. Tenho um amigo que diz: “a tecnologia não vai substituir o professor. Mas o professor que usa a tecnologia vai substituir o que não usa”.

 

Confira a íntegra desta entrevista na edição nº 3 da Revista iPlace Educacional – que pode ser acessada aqui.

 

Fotos: Colégio Humboldt/Divulgação

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